Até para cobrar é preciso se conhecer

No raciocínio de Muricy, o time oferecia o melhor para o atleta jogar e, assim, ele precisava cobrar; cada um que se virasse com a motivação. Talvez no seu negócio seja inevitável uma convenção com palestra motivacional, mas é importante que as condições sejam adequadas

Escritor e psicanalista, graduado e pós-graduado em Administração pela EAESP-SP da FGV e membro de Formações Clínicas do Fórum Lacaniano de SP
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Até para cobrar é preciso se conhecer

“Aqui é trabalho, meu filho!”. Se você acompanha um pouco de futebol, é provável que saiba que o autor da frase é o ex-técnico Muricy Ramalho. Figura querida no esporte que movimenta o brasileiro como poucas coisas, foi um jogador cabeludo e com futuro promissor que não se comprovou por causa de contusões.

Tornou-se auxiliar do lendário Telê Santana que tinha montado uma seleção icônica, fez escola, encantou, mas foi eliminada pela Itália em 1982. Muricy não chegou à seleção porque tinha um contrato com um clube e o honrou. A saúde também o afastou do comando do São Paulo, onde ganhou um tricampeonato brasileiro. Voltou depois como dirigente e saiu um pouco antes de um dos maiores escândalos, no qual não estava envolvido.

Mas por que falar de Muricy num espaço que se propõe a conectar a psicanálise e o meio empreendedor e empresarial? Porque passei por um vídeo dizendo que o papel dele não era motivar os jogadores e sim cobrar. Que ele não era psicólogo! 

Cumpre esclarecer que o papel de um psicanalista tampouco é motivar quem atende; é, sim, ouvir a pessoa e auxiliá-la a ter acesso ao próprio inconsciente e ir assumindo e bancando quem é, encarando as faltas, limitações e vazios, assumir os desejos e não ceder à tentação de culpar o outro. Mas um técnico é um líder da equipe, aquele que fica no banco, observando o jogo e fazendo as alterações... Ele não entra em campo; quando o faz, geralmente é expulso.

No mundo corporativo o jogo não tem juiz, e as invasões tão frequentes acabam não sendo punidas. Mas um líder que invade o jogo tem o potencial de destruir sua equipe mais do que ajudar.

Verdade que, dependendo do tamanho do seu negócio, muitas vezes é necessário cumprir papéis operacionais. O perigo é a tentação de fazer o que os outros podem fazer; até fazer melhor, mas deixar de fazer o que ninguém mais poderia.

A fala do Muricy tem lógica: as duas. É meio óbvio que, quanto mais focado no trabalho for o ambiente da sua empresa, melhor. E nos dias de hoje, ser focado no trabalho significa não apenas respeitar uma grande diferença entre as pessoas, mas sobretudo, tirar proveito dessa diversidade. Mas não é fácil: a sociedade está dividida e com os nervos à flor da pele. 
Também é importante não se omitir da função de disponibilizar as melhores condições de trabalho.

No raciocínio do Muricy, o time oferecia o melhor para o atleta jogar e, assim, ele precisava cobrar; cada um que se virasse com a motivação. Talvez no seu negócio seja inevitável uma convenção com palestra motivacional, mas é importante que as condições sejam adequadas. É claro que empreender é praticamente sinônimo de recursos escassos; aliás, o risco de quem levanta capital suficiente tende a ser maior do que quem vai para o negócio também com o estômago. Pulsão e libido!

Cobrar nem sempre é fácil. É comum nessas horas questões internas entrarem em campo, marcas ou até mesmo o que se acostumou a viver. Se fosse uma coluna para psicanalistas, provavelmente seria o momento de se discutir a estrutura do sujeito e como ele age e reage diante do outro e da vida, mas o espaço é pequeno para falar de neuróticos, psicóticos e perversos.

Mas sim, cada um tem um jeito de ser e isso vem do histórico da vida. O desafio do ambiente de trabalho é juntar essas pessoas tão diferentes sem querer acreditar que existem fórmulas prontas e fáceis.

Tem gente que cobra sem cobrar, apela ao mau humor. São aqueles que todos vêm perguntar para alguém que o auxilia ou protege: “como está o humor do chefe hoje?”. Já viveu em ambientes assim? Espero que tenha resistido aos ataques e episódios que deixam ambos com vergonha: você e sua equipe. Que não voltem no dia seguinte apenas porque precisam do trabalho.

O ideal é conseguir estabelecer uma relação direta com as pessoas, uma dinâmica o mais clara e transparente possível. Dá trabalho? Muito, não é fácil conduzir uma orquestra, não é fácil montar estratégias de jogo, escalar o time e ver como o adversário ou o mercado estão reagindo e responder ali, durante o jogo, durante o campeonato.

Um técnico, um CEO, um dono, um diretor precisam oferecer condições e saber cobrar. Mas são pessoas que estão à mostra, trazendo a atenção de todos para si. Elas precisam estar em dia com o carnê do Baú. Não adianta apenas olhar para a equipe e esquecer de si próprio. Das piores relações que se estabelecem no campo profissional, está a “você finge que trabalha e eu finjo que pago”, mas ela está espalhada por aí. Em tempos de inteligência artificial, tudo isso está sendo revisto. A IA não vai dar conta de tudo, mas vai ocupar funções e agilizar processos.

Todo líder precisa estar atento, consciente de quem é, sem joguinhos. Nisso a psicanálise pode sim ajudar. É rápido? Claro que não. Mas é uma proposta transparente. É um mergulho no seu vazio; sem isso, dificilmente será um bom cobrador e chegará perto dos seus objetivos.

Muricy nunca foi o jogador que sonhou ser; a vida é corda bamba. Mas encontrou um jeito de equilibrar o nome dele na história do futebol brasileiro. A sua análise também é trabalho, meu filho. Não adie! 


**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio** 

IMAGEM: Ricardo Nogueira/Folhapress

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