COP 30: entre a força da rotina e a urgência da ruptura

“Avaliar o (in)sucesso desta COP pela questão dos combustíveis fósseis é equívoco previsível, porém grave, que apenas reforça a visão estreita e monotemática, como desejam as forças da inação, para o enfrentamento de um problema global e multifacetado”

Valter Caldana
01/Dez/2025
Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie
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COP 30: entre a força da rotina e a urgência da ruptura

A Cop-30 acabou e o planeta, ao que parece, ainda não.

Uma das ideias fortes no tema mudanças climáticas e destruição da natureza é a de que somos passageiros. Se destaca o fato deste ser um ponto de convergência qualquer que seja a visão da relação humanidade/ambiente. Seja uma visão espiritualista ou religiosa, humanista ou idealista, pragmática ou mercantilista, ninguém duvida desta condição frágil e transitória.

Uns, diante de sua opção transcendente, entendem a transitoriedade terrena como estágio para o eterno; outros, entendem que a biosfera é um bem coletivo resultante de um processo transtemporal em que se vive num presente fugaz; e os terceiros entendem esta transitoriedade como sendo a chave para liberar uma voracidade incontrolável, como se de fato não houvesse amanhã.

Há três semanas, em artigo publicado neste mesmo DC, destacamos a necessidade de colocar o ambiente urbano no centro do debate climático. Não em oposição ao não urbano, mas como uma visão que considere mares, florestas, campo e cidade como faces de um mesmo espaço, o da vida. Afinal, neste assunto o todo é maior que a soma das partes e não haverá transição climática sem transição urbana, sem enfrentar a desigualdade extrema e a necessidade de uma governança descentralizada e participativa.

A partir da afirmação de que “as cidades, maior e mais complexa realização humana, vivem uma crise sem precedentes”, insistimos que a COP focasse no como fazer, assumindo “uma radical inversão da estrutura dos acordos multilaterais vigentes, que são baseados numa visão centralizadora, verticalizada, impositiva, dispendiosa e distante de bilhões de pessoas”.

Por isso, avaliar o (in)sucesso desta COP pela questão dos “combustíveis fósseis” é equívoco previsível, porém grave, que apenas reforça a visão estreita e monotemática, como desejam as forças da inação, para o enfrentamento de um problema global e multifacetado.

Vale lembrar que, do ponto de vista da efetividade, esta COP já nasceu frágil ao não romper com a ordem mundial, seus instrumentos ou suas metodologias. Ao contrário, as consolidou, confirmando sua vocação para administrar tensões, não para superá-las.

A análise do documento final CMA 7 reforça essa visão de mobilização retórica sem ruptura estrutural. O apelo por “unir esforços em um mutirão global contra as mudanças climáticas” embora forte e simbólico, não altera fundamentos da ação.

Contudo, para que se avance rumo à necessária ruptura, é preciso destacar os fortes avanços ocorridos, que vão da escolha de Belém (e não São Paulo, Rio ou outra capital) à pauta geral, aos espaços abertos para trocas técnicas e políticas e para a difusão de temas, necessidades e urgências.

Assim vista, a Cop-30 foi, portanto, um sucesso!

O deslocamento do eixo para Belém não pode ser subestimado. Ele explicita conflitos, empalidece a narrativa e os mecanismos de autoindulgência dos grandes poluidores e amplia as alianças globais. Servindo-se da Amazônia como metáfora, recoloca a Humanidade e o Coletivo como elementos centrais do debate ambiental.

O encontro entre o que Belém representa e o que a COP-30 entrega explicita uma saudável contradição: a ordem global permanece, mas uma nova centralidade emerge como campo de disputa política, técnica e civilizatória.

O desafio permanece: ampliar o espectro de soluções reais articulando o enfrentamento da desigualdade e da urbanização extrativista a uma governança descentralizada e participativa, que valorize a escala humana. Assim, se reitera a proposta de uma Rede Planetária de Cidades.

Belém não mudou o mundo, mas abriu a fresta pela qual ele pode começar a mudar.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**

 

IMAGEM: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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