Grupo do Paraná traz veículos comerciais elétricos chineses ao Brasil
A Timber, de Curitiba, trouxe ao Brasil a marca Farizon, da montadora chinesa Geely. Parceria envolve dois modelos de vans e um caminhão leve, todos 100% elétricos

O mercado brasileiro de veículos eletrificados é impulsionado por montadoras chinesas como BYD e GWA. Entre janeiro e outubro deste ano, os emplacamentos de híbridos totalizaram 158.248 unidades, alta de 82,35% sobre igual período de 2024. No caso dos elétricos puros, os emplacamentos somaram 61 mil, crescimento de 17,8%. Os números são da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores).
Apesar do forte crescimento, esse mercado ainda tem um lado pouco explorado: o dos veículos comerciais. Segundo dados de uma pesquisa realizada pela SimpliRoute, em parceria com o Instituto Tecnológico de Monterrey, em média, 31% das empresas planejam investir em veículos elétricos ou híbridos nos próximos cinco anos como parte de um trabalho logístico mais sustentável.
Além disso, o levantamento mostra que 59% das empresas de logística brasileiras estão mais conscientes sobre a necessidade de reduzir a emissão de carbono em suas operações. Em outros países da América Latina, essa preocupação é menor, envolve 36% das empresas desse setor.
De olho no potencial desse segmento de mercado, o Grupo Timber, de Curitiba, trouxe ao Brasil a marca Farizon, da montadora chinesa Geely, com o objetivo de vender vans e caminhões eletrificados no país.
“O Brasil tem potencial para se tornar o maior mercado de veículos comerciais do mundo, depois da China. Com a evolução das baterias, a ampliação da infraestrutura de recarga e o aumento da pressão por eficiência e descarbonização, os veículos elétricos devem ganhar espaço na matriz de transporte urbano nos próximos anos”, explica Jober Cardoso da Fonseca, CEO do Grupo Timber.
Fonseca diz ainda que a competitividade de custo operacional, assim como a necessidade de as empresas atenderem à agenda ESG, são determinantes para a escolha da frota. “Em 2024, a Farizon vendeu mais de 110 mil unidades na China, conquistando mais de 20% de market share de veículos comerciais eletrificados”, diz Fonseca.
Com investimento de R$ 40 milhões e a implantação de uma concessionária-modelo em Curitiba, a parceria do Grupo Timber com a Geely resultou na chegada ao Brasil de três modelos 100% elétricos da marca Farizon voltados ao transporte comercial urbano: a van V6E, desenvolvida para operação last mile e e-commerce; a Supervan, para atender demandas maiores de carga e peso; e o H9E, caminhão leve que suporta entre seis e oito toneladas de carga, projetado para entregas urbanas.
Os veículos têm autonomia entre 250 km e 300 km, pacote de bateria robusta e manutenção programada a cada 30 mil km.
Um dos principais desafios dos consumidores ao optarem por um veículo convencional ou elétrico é colocar na balança se vale a pena o investimento. Segundo Fonseca, o grande diferencial dos veículos comerciais eletrificados está no custo total de propriedade (TCO), cálculo que engloba todos os custos de aquisição, operação, eletricidade e manutenção de um veículo ao longo do tempo. “O elétrico custa mais no investimento inicial, mas compensa com energia mais barata, intervalos longos de manutenção (30 mil km) e menos peças de desgaste.”
Além disso, há fatores como zero emissão de poluentes, permitindo que o veículo circule em áreas de restrição urbana, além de contribuir positivamente para a imagem de empresas que buscam contratos sustentáveis. “Para os empreendedores, isso significa previsibilidade de gastos, eficiência operacional e vantagem competitiva”, afirma Fonseca.
Apesar de ainda existir diferença no preço de aquisição de veículos tradicionais comparado com o de veículos comerciais elétricos, quando comparado o TCO, os veículos elétricos se mostram mais competitivos, justamente por terem uma energia mais barata e uma manutenção simplificada, reduzindo paradas e custos de oficina.
Com previsão de importação de 200 unidades até dezembro de 2025, que serão distribuídas em hubs operacionais em São Paulo e Curitiba, a Farizon já tem negociações com algumas locadoras e grandes operadores logísticos, sinalizando a demanda do mercado.
Inicialmente, o objetivo é expandir nas regiões Sul e Sudeste, por serem mercados de maior volume e por terem uma infraestrutura para mobilidade elétrica mais madura. Além disso, está no radar do Grupo Timber a construção de uma estrutura própria de vendas em São Paulo.
Infraestrutura de recarga
Com a autonomia média de 250 km, o tempo de recarga dos veículos trazidos pela Timber é de cerca de 1h30, em carregadores rápidos, e oito horas em tomadas convencionais.
Segundo Fonseca, a infraestrutura de recarga, apesar de estar em expansão, ainda é um dos grandes problemas para o segmento de eletrificados no Brasil, por não cobrir todas as regiões. Além disso, diz, há os desafios culturais dos brasileiros se adaptarem à recarga e migrarem da lógica de compra para locação dos veículos.
Como estratégia da Farizon para ampliar sua presença no Brasil, seus veículos comerciais elétricos são locados com valor residual zero, fazendo com que o cliente pague apenas pelo uso do veículo, sem precisar se preocupar com o valor de revenda ao final do contrato. “Isso reduz significativamente a barreira de entrada e garante maior previsibilidade financeira”, diz Fonseca.
Mercado
O mercado de veículos elétricos comerciais no Brasil pode movimentar cerca de R$ 200 bilhões até 2030, mas a expectativa de Renan Verli, cofundador da VOX EPOWER, é que esse número seja superado, impulsionado pelas questões econômicas. “Depois que o motorista entende que o carro elétrico é confiável e supereconômico, ele não quer voltar atrás. Vemos isso claramente, por exemplo, com o número de motoristas de aplicativo migrando para carros elétricos”, diz.
Segundo Verli, um dos grandes desafios do mercado é a falta de conhecimento sobre os veículos elétricos, assim como ocorreu com o gás natural veicular (GNV). “Depois que as pessoas entenderam o sistema, ele foi amplamente aceito”, diz.
Para Samuel Monteiro, professor do curso de Engenharia Mecânica do Centro Universitário FMU, apesar do forte crescimento do setor, é uma área que ainda depende de muitos investimentos. “A infraestrutura é o ponto principal, pois, mesmo que queiramos ter pontos de carregamento na mesma quantidade dos postos de gasolina que temos hoje, no momento não é possível, por não termos energia suficiente para essa demanda”, diz.
Outro desafio para o crescimento dos carros comerciais elétricos no mercado, segundo Monteiro, é ter pessoas capacitadas em todo o território para o pós-venda, treinamento específico e manutenção certificada.
Já entre as vantagens apontadas pelo professor, os comerciais elétricos apresentam menor ruído, algo positivo nas entregas em locais residenciais a qualquer hora e local que tenham restrição sonora. Além disso, há incentivos tributários e comerciais e concorrência no custo de aquisição.
IMAGEM: Rebeca Ribeiro/DC

