IA vira infraestrutura da moda e redefine criação, operação e varejo no Brasil

Tecnologia já encurta prazos, reduz custos e personaliza o setor com campanhas inteiras geradas por algoritmos, sem deixar de lado a criatividade humana

Cibele Gandolpho
08/Dez/2025
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IA vira infraestrutura da moda e redefine criação, operação e varejo no Brasil

A inteligência artificial (IA) tem avançado pelo setor de moda com velocidade suficiente para deixar de ser inovação pontual e se tornar infraestrutura. Não se trata mais de experimentos isolados, mas de uma tecnologia que reorganiza processos, acelera prazos, reduz custos e expande a criatividade.

Segundo o relatório “State of Fashion 2024”, da McKinsey, 73% das empresas globais de moda já utilizam IA em alguma etapa da operação. Desse total, 68% esperam redução de custos acima de 5% com a tecnologia nos próximos 3 anos e 90% acreditam que a IA generativa será determinante para criação e personalização até 2026.

No Brasil, empresas demonstram como a IA passou a estruturar o e-commerce e o varejo físico, ao mesmo tempo em que especialistas observam a transformação diária nos bastidores da produção visual.

Mesmo com o impacto profundo, um consenso se mantém: o componente humano permanece vital para preservar identidade, curadoria e conexão emocional.

A estilista e figurinista Marcia Jorge, com mais de 20 anos de carreira e experiência em marcas como Boticário, Avon e Romanel, afirma que a IA trouxe uma transformação real, diária e irreversível.

“Depois de tantos anos em campanhas publicitárias e editoriais, posso dizer: nunca vi uma transformação tão prática quanto essa”, destaca.

Segundo ela, a tecnologia solucionou atrasos e custos que há décadas acompanhavam produções — desde ajustes de cor até dificuldades logísticas envolvendo modelos e peças.

Estudo do Boston Consulting Group mostra que o uso de IA em criação de conteúdo visual pode elevar a produtividade entre 30% e 90%, além de reduzir o tempo de produção de campanhas em até 70%.

Um dos avanços mais significativos está no uso de avatares gerados por IA. “Em editoriais recentes, conseguimos representar uma diversidade de corpos e roupas que seria impossível logisticamente ou financeiramente com modelos reais”, afirma.

Em um cenário de orçamentos mais enxutos e baixa disponibilidade de produtos para empréstimo, avatares se tornaram ferramenta essencial.

A produção de catálogos, tradicionalmente uma maratona logística, também mudou. “Produzi catálogos com mais de 300 peças em três dias. Era um pesadelo logístico.” Hoje, apenas os looks principais exigem fotografias. Variações de cor e peças básicas são renderizadas com alta fidelidade, reduzindo prazos e estresses típicos da fase de aprovação.

Outro benefício é o fim das refações completas. “Já tive que refazer ensaios inteiros porque o cliente não gostou do tom de um vestido ou da locação escolhida”, conta Marcia.

Agora, iluminação, fundos e cores podem ser ajustados digitalmente, permitindo que fotógrafos concentrem esforços na narrativa visual da coleção. “O fotógrafo pode se concentrar nas imagens que contam a história da coleção, enquanto a IA cuida do restante”, afirma.

Para a estilista, longe de substituir profissionais, a tecnologia ampliou o espaço para a criatividade. “Os fotógrafos com quem trabalho não foram substituídos. Pelo contrário: estão explorando a direção criativa com mais profundidade.”

Ela mesma percebe maior liberdade. “Como stylist, posso testar variações e combinações com muito mais liberdade antes da execução real. É como ter um laboratório criativo à disposição.”

Outro ganho importante é a democratização da qualidade visual. Pequenas marcas agora conseguem competir com grandes empresas em termos de material visual, algo impensável anos atrás.

Inteligência híbrida

Se nos bastidores da produção visual as mudanças já são profundas, no varejo, o impacto aparece em escala industrial.

A Dafiti - um dos maiores e-commerces da América Latina - já utiliza inteligência artificial no dia a dia, mas seu grande diferencial está na forma como une tecnologia e trabalho humano no conceito chamado Dafiti Hybrid Intelligence (HI).

Com essa integração, a empresa vem redesenhando diversos fluxos internos: diminuiu em até 80% os custos de produção de campanhas, reduziu em 60% o tempo de desenvolvimento de projetos criativos e tornou mais ágil a logística reversa.

O modelo HI combina automação e análise inteligente com criação, curadoria de moda, atendimento e operações, mantendo as equipes no centro das decisões e garantindo melhorias reais na experiência do consumidor.

Leandro Medeiros, CEO da Dafiti: IA é um motor de agilidade, experimentação e redução de custos (Imagem: divulgação)

 

Um exemplo emblemático dessa virada, segundo a empresa, foi a campanha de Dia dos Namorados de 2025, concebida integralmente com IA.

Cenários digitais, narração automatizada e visual planning (agendamento e gestão de recursos) foram gerados com modelos avançados de IA, eliminando gastos com locações, logística e transporte de peças, sem abrir mão da direção criativa humana.

“O time segue no centro, garantindo a essência da marca. É isso que chamamos de inteligência híbrida”, afirma o CEO da empresa, Leandro Medeiros.

Ele reforça que a IA virou um motor de agilidade, experimentação e redução de custos, mas que não substitui o olhar que define a marca.

Além de campanhas, a inteligência artificial permeia a operação de maneira prática. Na jornada de compra, algoritmos ajustam vitrines digitais de acordo com comportamento e histórico do consumidor.

Na logística reversa - tradicional gargalo do e-commerce - a Dafiti passou a usar um sistema que unifica informações antes dispersas em quatro telas diferentes. Agora, remessas, prazos, fotos e reclamações aparecem em uma única interface. Isso reduziu a navegação em 75% e diminuiu o tempo de análise de quase dois minutos para cerca de 10 segundos, uma queda de 92%.

Chatbots e assistentes virtuais também estão em teste, com regras rígidas para evitar substituição da empatia humana: questões simples ficam com a IA e necessidades complexas seguem para atendimento especializado.

Para a empresa, esse conjunto de iniciativas consolida um novo estágio do varejo de moda, em que automação e criatividade dividem o trabalho, ampliando qualidade, eficiência e narrativa de marca.

Aramis

Já a Aramis fez da tecnologia um ponto central da sua estratégia. No ano em que completa 30 anos, a marca se apresenta como uma fashion tech, unindo dados, automação e inteligência artificial ao processo de criação das coleções, ao dia a dia das lojas e à experiência do cliente.

A empresa opera em um mercado global de soluções de “fashion tech”, que ultrapassou os US$ 25 bilhões em 2024.

No Brasil, esse avanço é reforçado por um consumidor cada vez mais digitalizado e sensível a experiências mais fluidas e personalizadas.

No centro dessa mudança está uma estrutura tecnológica moderna, baseada na nuvem, que reúne todas as informações da empresa em um único ambiente.

Lá, ficam dados de mais de um milhão de consumidores, o que permite entender melhor seus hábitos e prever a demanda. Com isso, a Aramis consegue reduzir riscos na produção e no estoque - dois desafios clássicos do varejo de moda.

A Aramis tem se posicionado como uma fashion tech, apostando em inovações como provadores virtuais e outras que melhoram a experiência de compra (Imagem: divulgação)

 

A partir dessa base, a empresa estruturou um ecossistema digital que conecta consumidores, vendedores e lojistas parceiros.

Ele inclui o App do Cliente, com provador virtual e recomendações personalizadas, o App do Vendedor, voltado ao atendimento consultivo, e uma Plataforma Multimarcas que digitaliza a relação com centenas de lojistas.

O objetivo é eliminar barreiras entre canais e tornar mais consistente a experiência de compra, independentemente do ponto de contato.

"Mais do que soluções digitais, estamos estruturando um ecossistema que permite escalar performance com inteligência e entregar uma experiência mais humana, personalizada e conectada ao dia a dia do nosso cliente", explica Edgar Carmo, head de negócios digitais da Aramis Inc.

Esse avanço em dados respalda decisões que vão além das vendas, influenciando planejamento, design e o posicionamento futuro da marca.

Exemplo prático

Nas lojas, a inovação também está evidente. No Morumbi Shopping, por exemplo, provadores virtuais equipados com IA permitem testar modelagens, cores e ajustes no próprio corpo.

O lançamento da jaqueta “Meta Heat”, com controle digital de temperatura, reforça a convergência entre moda e tecnologia no portfólio da empresa.

A integração dos dados também permitiu criar uma plataforma que reúne todas as informações dos clientes em um só lugar. Ela alimenta sistemas de inteligência artificial usados para enviar comunicações personalizadas.

A marca afirma que já consegue recuperar até 15% de clientes que foram impactados digitalmente, mas não concluíram a compra física. Internamente, a empresa aposta na alfabetização em IA para toda a equipe e usa algoritmos para otimizar a distribuição de clientes entre vendedores.

Essa base técnica sustenta, também, iniciativas mais ambiciosas, como a expansão da plataforma de marcas da Aramis, a House of Brands, e colaborações de grande repercussão, entre elas a parceria com Alexandre Herchcovitch.

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IMAGEM: Freepik

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