Paulista: um nome, alguma história
"São Paulo em sua fundação é, como se disse, marco da expansão do mundo Católico, nome que busca se fixar em oposição a Protestante. No plano econômico, porém, é em sua origem entreposto de escravos"

O nome Paulista é derivado de São Paulo, personagem que viveu a incumbência de alastrar o cristianismo. Para isto, fundou muitas comunidades cristãs pelo mundo antigo ligadas ainda ao lastro da cultura grega, mas sob domínio romano. Em dada leitura, paulista é então o filho de São Paulo. Da mesma forma, a nossa São Paulo tem ligações com a expansão do cristianismo só que em outra temporalidade. Ela é fundada no século XVI, no ano de 1554 depois de Cristo, e é um marco conectado à ideia de que o evangelho é para todos. Os jesuítas, padres que fundam a cidade, ainda testemunham a ideia de que o Cristianismo se dividiu, e é preciso trabalhar para que o Catolicismo seja a ala dominante. Neste sentido, São Paulo é ação da Contrarreforma.
O fato nos remete a 1517 com Lutero e as bulas rasgadas, ato inicial da Reforma ou do Protestantismo. A ação ainda nos envia ao Portugal de D. João III (1502-1557) e sua política de colonização da América Portuguesa. É preciso também menção à instituição do Governo Geral de 1549, com Salvador como centro administrativo. Estes elementos pedem ainda a adição do fato de que os jesuítas vindos com Tomé de Souza (1503-1579) são religiosos e funcionários da administração lusa que queria se fixar. Os tempos eram outros. Vivíamos um episódio que tinha um Estado regido por uma razão teológica que fundia competências. Os reis governavam por direito divino e os seus vassalos eram vassalos de Deus que, lembremos, era o senhor dos exércitos.
Assim, a ação jesuítica que é ação do Estado funda vilas que são satélites ligados a Salvador e, na extensão, a Lisboa e a Roma. No caso de São Paulo, ela se inscreve ainda na ação jesuítica de fundar cidades em homenagem ao santo viajante e missivista. Neste contexto, ela é irmã de São Paulo de Goa (1510), de São Paulo de Luanda (1576). Nós somos a São Paulo de Piratininga, mas a única, entre as urbes citadas, que se nomina ao longo de sua história com o nome do santo. Além, o que há é Goa, é Luanda, também fundada em 25 de janeiro. Aqui, temos São Paulo. Piratininga é nome esporádico e o fato causa estranhamento. Os nomes índios, porém, são ainda usados em abundância em todo o estado, e a Língua Geral esteve conosco até a independência.
São Paulo em sua fundação é, como se disse, marco da expansão do mundo Católico, nome que busca se fixar em oposição a Protestante. No plano econômico, porém, é em sua origem entreposto de escravos. A vila é um marco geográfico no topo do planalto para onde aflui a mão de obra capturada no sertão. Já em sua fundação, a vila conta com grupos organizados que promovem o descimento, sua venda e repasse. O atual pátio do colégio é o espaço do movimento financeiro desta venda e deste repasse. João Ramalho (1493-1580/82) é chefia de um grupo em que ele conta com a ajuda dos familiares de muitas de suas esposas para apresamento e descida. O fluxo do escravizado indígena movimenta a vila e cria uma rivalidade que se torna histórica.
A rivalidade à que se alude é a que se estabelece entre jesuítas e paulistas apresadores que muito se interessam pelo indígena dos aldeamentos sob a tutela inaciana. À medida que na região o trabalho catequético se expande, mais os atritos tomam forma. A empresa de captura se interessa pelos índios do sertão, mas se interessa imenso por índios já descidos e sob cuidado do jesuíta. O trabalho catequético refaz culturalmente os aldeados. Ensina-lhes nova vida em grupo, nova vida familiar, novas formas de trabalho. O índio não é mais o caçador e o guerreiro por excelência. Sob ação jesuítica, ele é o agricultor, ação que na cultura original é da mulher, da sua alçada, tal como a coleta de mel, de frutos, de tubérculos na floresta.
Deste modo, o ataque a aldeamentos dá ao apresador agricultores em dobro e com técnica de cultivo aprimorada. Se não há o ataque, o índio cedido pelo jesuíta para o trabalho sazonal nas fazendas – acerto antes fixado – não volta ao assentamento. Por isto, ao longo da história dos aldeamentos inacianos em São Paulo, a constância é o aldeamento vazio. O índio emprestado ao fazendeiro não é devolvido e se torna peça, propriedade, bem que passa a constar nos espólios, nos inventários, nos testamentos. Ao longo do século XVII, o fato está mais que estabelecido. São Miguel Paulista e Barueri, para exemplo, assentamentos em suas origens, estão sempre vazios. Há uma rivalidade de fato estabelecida e o fazendeiro vê o jesuíta como concorrente comercial.
No processo desta rivalidade, a reação jesuítica torna-se campanha detratora do fazendeiro paulista, nome já muito difundido no contexto colonial na primeira metade do século XVII. O jesuíta, contudo, lê este nome como sinônimo de facínora, fera, besta. Trabalhar contra ele significa ainda lutar pela publicação de leis de libertação do índio. Exemplo do fato é a lei de 1639 que, em 1640, leva à expulsão dos padres do pátio do colégio. A ausência se estende até 1653, com volta solicitada pela população local, mas fato que não sela acertos de paz inviolável ou amizade das mais fraternas. Em 1681, temos o paulista novamente no pátio do colégio, vociferando por nova expulsão. A causa é a mesma: a lei de libertação do índio de 1680.
Na contenda com o jesuíta, porém, a vitória é paulista. Seu estabelecimento ocorre em fins do século XVII. De lenda negra – a difamação jesuítica – vai-se à lenda áurea, fato ligado ao achado aurífero em Minas que se torna o primeiro mais abundante. O ano é o de 1694, também data na qual o paulista assume a administração direta dos índios sob trabalho escravo na capitania. Desde os anos 1680, a câmara da vila, representando a si e a muitas outras localidades paulistas, pleiteia o fato e vem a o conseguir. A conquista é ainda situação de auge da ação de um colonato que se firma e se torna pujante em sua economia entre os anos de 1680 e 1720. Os dados são os da pesquisa de John Monteiro e Ilana Blaj entre 1990 e 2000.
Recorde-se, entretanto, que o paulista que aqui se destaca é nome sempre atrelado ao submetimento do índio à escravidão. Não há trabalho na capitania que não passe pela mão do serviçal indígena. Entre nós, a mão de obra da escravaria negra é tardia. A economia do café é a que a traz para o nosso meio, para nossa geografia. Lembremos ainda que a população da capitania é sobretudo mestiça de branco com índio. O tipo humano que prevalece entre nós é o mameluco. As lideranças paulistas coloniais são mamelucas, são mestiças. Recordemos também que mameluco é termo do árabe, tal qual mulato, vocábulos sinônimos na origem. O paulista mameluco, porém, é o que escraviza indígenas, quase sempre sua origem materna.
Na sociedade colonial paulista, o fato não foi um contrassenso. No episódio, o paulista é também o mestiço que nasce do encontro de mestiços. Mameluco gera mameluco, e a população local só vem a conhecer mudanças na sua constituição com a economia cafeeira. O café nos trouxe o negro, particularmente via tráfico interno de escravos. O café nos trouxe o branco, via imigrantes europeus, de modo particular italianos, que chegam com a República e sua política de branqueamento. No período colonial, as genealogias com de Frei Gaspar da Madre de Deus no século XVIII falam em índios e mamelucos. Entre nós, porém, o índio é o negro da terra segundo documentos, e a cor da pele fora do branco é sempre pretexto para a escravização.
Então, o mameluco (que não é branco, mas mestiço como se afirmou) vê-se acima do índio, sobretudo os que estão nas chefias dos clãs de poder econômico e os acólitos mais diretos. Provavelmente, na situação de senhores, viam-se superiores e se gabavam, seguindo práticas e representações de uma época. No trato do século XVII, os homens bons, os que têm acento na câmara da vila querem se destacar. Querem expressar alguma fidalguia, mesmo que tacanha fidalguia. São Paulo no período colonial é periferia. Na colônia, as geografias de destaque direto são Salvador, Recife. O aristocrático está segundo certa versão nos engenhos. O homem que Antonil destaca como o civilizado no seu Cultura e Opulência (1711) é o senhor de engenho.
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IMAGEM: Patrícia Cruz/DC

