Paulista: um nome, outra história

“O paulista ao qual se alude é um mestiço entre branco e índio (inclusive as lideranças), chamado de mameluco, termo árabe, tal qual mulato”

Juarez D. Ambires
02/Jan/2026
Doutor em Literatura Brasileira pela USP; professor de Língua Portuguesa da FAC e da General Preparatórios
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Paulista: um nome, outra história

O paulista é presença de fato ativa na história do nosso período colonial (1500 a 1822) e é importante que atentemos à afirmação. No circuito interno da América Portuguesa, ele se especializou em prestações de serviços que permitiram a colonização. Permitiram ainda que fosse deixado o litoral Centro-sul e nos encaminhássemos para o Oeste. Sua ação neste sentido é profícua, eficaz. É preciso, porém, não cair no equívoco da exaltação épica da figura, ação já efetuada por alguns historiadores. O paulista ao qual se alude é um mestiço entre branco e índio (inclusive as lideranças), chamado de mameluco, termo árabe, tal qual mulato. Este paulista mestiço é ainda o encontro entre mamelucos, o que gera mestiços por largo tempo.

Lobato ainda os mencionará, no início do século XX, sob a designação de caboclo ou caipira, personagem de destaque no contexto dos contos de Urupês, de 1918. Os mesmos atores são ainda de relevância para a derrubada da mata atlântica no Vale do Paraíba. Sua força de trabalho é a primeira ação para o alastramento do café entre as províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. O período, contudo, já é o do Brasil império que, com a economia cafeeira, relega outra vez à margem a população referida. Sob o café, a mão de obra é a negra tanto para o Vale, quanto para, depois, o Oeste paulista que também conhecerá o trabalho do imigrante na produção dos grãos. No presente artigo, todavia, o interesse pede um retorno mais detido ao período colonial.

Pesquisas mais atuais que têm se provado mais coerentes dão novo enquadramento ao paulista do período colonial. São Paulo, apesar de ser zona periférica, não é o tempo todo apenas o espaço da pobreza, fato já defendido. O geral de sua população é pobre, mas isto não a diferencia negativamente dos habitantes de outras cercanias coloniais. Lembremos que, mesmo na zona açucareira, a renda está concentrada. Poucos contam com a possibilidade de desfrutar de maiores confortos materiais. Recordemos também que, na colônia, riqueza é comer todos os dias e nem sempre com fartura, menos ainda variedade. Paulista é aquele que incorpora os hábitos já muito antigos e apurados dos indígenas para subsistir na terra.

Sem esta apropriação, não teria sido possível sobreviver nas áreas meridionais da colônia. John Monteiro e Ilana Blaj dão-nos conta dos fatos em textos inovadores em nossa historiografia mais recente. Neste aspecto, mais se destaca John Monteiro (1956-2013), especialista em história indígena. Por meio de seu texto, São Paulo (o povoado) e as vastas áreas da capitania, representadas pela câmara da vila, incorporaram hábitos indígenas, causa da sua perpetuidade. Para a comunicação, usa-se a Língua Geral, expressão também de grupos linguísticos diferentes que vêm para o comércio esporádico. À época, o bandeirante (termo que só se fixa no século XVIII) que deixa o nome para a história local está longe de dominar a Língua Portuguesa.

Nas casas da vila e alhures, dorme-se em redes e nas varandas se as tece, tal como os nativos o fazem em suas aldeias. O trato das fibras vegetais também é o do indígena. Vive-se quase sem mobília. Nas cozinhas, usam-se a cerâmica dos silvícolas, suas cuias e gamelas. Usam-se ainda os pilões, escavados em madeira resistente, e suas mãos de pilar. Triturar manualmente grãos é uma constante nas casas, nas aldeias. Há ainda os balaios e peneiras, trançados com lascas de taquara ou bambu. Em potes e balaios, guardam-se farinhas e grãos, estes envolvidos na cinza dos fogões e fogueiras para se evitar o caruncho ou outros insetos. Há observação das fases da lua na extração de fibras. A lua adequada garante resistência, durabilidade.   

No quesito alimentação, todavia, é que mais se copiam as práticas indígenas. A colônia ficou dependente do milho e da mandioca, produção índia que se tornou a base da nossa alimentação. Os indígenas das diversas etnias do território domesticaram estas plantas (algumas variedades) e dispuseram delas a seu favor e do nosso. O que o colonizador faz é estender as terras de plantio, as roças, e a produção dos derivados. Com a mandioca se faz a farinha (tal como na tradição indígena) que é alimento e ajuda a preservar outros, como carne cozida, frita ou assada. Com o milho se fazem sopas, doces e o angu, base de uma alimentação que atinge a todos. A espiga do milho pode ainda ser carregada em espécie e assada.

O mais é a recolha de tubérculos, de frutos e do mel pela floresta, a retirada do palmito, a pesca e a caça, tudo muito nos critérios dos indígenas. Na floresta, anda-se em fila indiana. Andar um atrás do outro garante que os componentes do grupo se vigiem. Lembremos ainda que os índios temperam seus alimentos. Algumas qualidades de pimenta vieram de suas práticas culinárias. Entre os meridionais, o sal é raro, porque muito caro. A vinda de fora e o trajeto interno o encarecem. Os pimentos por isto têm algum valimento. Nos caminhos fluviais, as canoas índias são o meio de transporte. O Paulista vale-se ainda dos nomes originais. Os nativos já a tudo haviam nominado antes do europeu. Os vocábulos índios designam os lugares, a toponímia e permanecem. São Paulo é geografia forrada de palavras indígenas até o presente.

Graças à agricultura paulista, o milho e a mandioca se disseminam e passam a ser a base da alimentação da colônia de norte a sul. O paulista colonial é o empresário do milho e da mandioca. Com isto, no Nordeste, a mão de obra negra se concentra nos canaviais e na produção do açúcar, fora das lavouras de subsistência. O meridional é ainda o produtor de um excedente usado no tráfico negreiro. Fubá e farinha serão os produtos mais usados na manutenção do tráfico de africanos. Os mesmos produtos estão em circulação pelo interior da África e em pontos do seu litoral para a alimentação dos escravizados. As senzalas de resguardo da mão de obra em Luanda, para exemplo, serão mantidas a fubá, com o angu, e à mandioca, com a farinha.

Associam-se a esta parceria a água ardente e a rapadura. Esta produção para o tráfico também passará pela ação paulista. Fubá, farinha e cachaça comporão uma tríade imbatível. Sem ela, o tráfico não teria sido possível. A tríade garante também a sobrevivência dos tripulantes no caminho para o Brasil. A mesma produção é ainda um indicativo de unidade mínima na periferia da colônia. Por trás, encontra-se a produção paulista que se garante o tempo todo com a utilização da mão de obra indígena – o negro da terra na expressão de John Monteiro. A partir do seu submetimento é que toda a economia se estabelece. Quem trabalha é ele, e o paulista o usa para reproduzir na propriedade o seu modo de vida que, como se disse, garante sobrevivência.

Milho e mandioca serão plantas levadas para a África e cultivadas no continente. A cachupa de Cabo Verde conta com o milho na sua composição. Lembremos ainda que o milho será cultivado em Portugal. Não bastasse, garante, segundo Alencastro, a presença do que será a unidade da colônia. Assim, somos remetidos à sua ligação com o comércio negreiro. Atrás dele, porém, insistimos que se afirmam as produções do milho, da mandioca e da aguardente. Estes são os produtos da economia periférica e na função prática de moeda de troca. Na extensão, os mesmos produtos são garantidos pelos paulistas, produtores em escala de fato comercial. Em plano mais recuado, porém, há o índio escravizado na lavoura e sua superexploração.

O paulista é ainda o prestador de serviços. Com isto, quer-se dizer que ele é em primeira instância a polícia interna da colônia. Neste serviço, os grupos organizados são solicitados pela coroa para empreitadas. Indígenas sublevados contam sempre com a perseguição das bandeiras. O fato é considerado guerra justa e o bandeirante paulista fica sempre com o resultado do saque e a propriedade dos índios apresados. Todo o período da chamada guerra dos bárbaros conta com a presença belicosa dos grupos paulistas no combate a índios insurgidos. Há também a peleja contra quilombos, e a de Palmares é a expressão plena do fato em nossa história. Seria ainda a ação maior do paulista no controle interno metropolitano e na afirmação da sua ordem.

O colono meridional é ainda ação de busca constante dos metais e pedras preciosos. A coroa alimenta o sonho do acesso ao ouro abundante e às gemas. Neste sentido, o sucesso da Espanha incomoda. Primeiro, há o ouro dos Astecas. Em sequência, o ouro dos Incas. Tempos após, há a prata de Potosi. A economia mercantil está vinculada ao acúmulo de metal e incentiva as expedições. O poder está com as metrópoles que detêm reserva de ouro. O reino luso deseja o enquadramento. Por isto, o paulista também se incumbe desta empresa. As entradas com o fato nunca foram apenas empresas de apresamento de indígenas. Foram ainda episódios de busca do metal. Antes do final do século XVII, porém, o encontrado é irrisório.

Em profusão o metal é achado em Minas Gerais e somente em 1694. E com este feito é que a coroa dá ao paulista o título de fiel vassalo e o bandeirante meridional está no seu auge. Para Ilana Blaj e John Monteiro, este ápice na sua vez está inserido em cronologia mais alargada. O período entre 1680 e 1720 o contém. A pesquisa de ambos os autores nos remete ao período. Na correlação, mostra a face de uma economia ativa, de boa prosperidade. A comprovação são os seus extensos plantios, os seus criatórios de animais, o largo comércio entre capitanias. Entre a documentação levantada para a afirmação dos fatos, há, para exemplo, testamentos, e o que se vê é expressivo pecúlio material já em forma de herança.

Este paulista a que nos referimos é o que sempre transformou a legislação de libertação dos índios em letra morta. É ainda o que enfrentou o jesuíta e controlou o poder da Ordem na capitania. Seria também o que reverte ante a coroa a imagem negativa expressa pela lenda negra articulada pelos inacianos. A ação deste colono reverte a narrativa citada em lenda áurea. Os fatos aqui enunciados e os anteriores levam o paulista a administrador direto da mão de obra indígena em seu poder. Nos testamentos do período em questão, as peças são legadas de pai para filho. Os aldeamentos periféricos à vila estão sempre vazios. As autoridades da Bahia reconhecem a eficácia da sua prestação de serviços e a utilizam.

No século XVIII, o reino conhecerá a sua ação expansionista para o oeste. O ouro de Goiás e o de Mato Grosso vêm após o de Minas. As lavouras de subsistência acompanham o colono, como ainda a escravaria índia. O extremo oeste ainda levará o paulista à organização do comércio de manutenção destes espaços que, em tese, até 1750, pertencem à coroa espanhola. A queda do Tratado de Tordesilhas muito deve às entradas infratoras paulistas. Ao comércio de manutenção citado o paulista dará o nome de monções. Das prestações de serviço sua vigência é a mais estendida. Ela acontece por mais de um século. Há registros das monções paulistas entre 1720 e 1830. O seu caminho é o das águas, o dos rios que correm para o interior, para o sertão.

Os dissidentes paulistas de 1709 e em Minas, saídos da guerra dos emboabas, se reorganizam na Vila de São Paulo e fazem o trajeto das águas. Abandonam a Mantiqueira e fazem o percurso do Tietê. Na trilha fluvial, Porto Feliz é o melhor ponto de embarque rumo ao Rio Paraná e aos afluentes que levam a Mato Grosso. Há bonita tela de Almeida Júnior que retrata a preparação das canoas com as mercadorias para o embarque rumo ao extremo oeste, no caso Cuiabá. Nas canastras e caixas, o que se tem é sobretudo os produtos secos já apregoados. Também no comércio das monções, as farinhas de milho e de mandioca imperam. Destaca-se ainda a presença paulista, que não pode ser preterida, na dinâmica para fora ou para dentro da economia colonial.

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IMAGEM: Paulo Pampolin/DC

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